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da daquelas flores ah dizíamos desinteressados e íamos cuidar da vida a árvore se esvaindo naquela abundância à beira de nossas brincadeiras de rua por anos pouco ligávamos foi então que houve uma tarde muito particular sentamos nos em um círculo de crianças e nos pusemos a discutir nossos assuntos de extrema importância íamos bem assim até que nos interrompeu o sobressalto inesperado de uma amiga sentada à minha frente que abriu a boca para dizer algo e não conseguiu diante de nosso silêncio logrou soltar uma exclamação sem forma e apontar por sobre nossas cabeças quando pude me virar só enxerguei a pequena árvore com aquelas suas mesmas dezenas de flores mas algo era novidade no entorno daqueles instantes como se o céu mesmo tivesse assumido um azul mais profundo de anunciações e corresse por ali um vento causador de arrepios na gente de repente entendi que uma das flores bem no centro da copa da árvore havia acabado de se abrir por completo e eu não havia visto era diferente das outras até menos encardida provavelmente de tão pouco de mundo ainda que a aborrecia estava embriagada de sol túrgida de ilusões precoces achei a bonita fiquei triste por dias de uma pena profunda passei a perder muitas coisas pequenas depois disso lápis borrachas chaves moedas minutos nunca me recuperei foto ilustração botânica em curtis s botanical magazine 1846 postado por paixão m às 18 39 4 comentários domingo 17 de março de 2013 nota de agradecimento eu me lembro dos meus oito anos me lembro bem como todas as crianças eu esquadrinhava o chão enquanto ia caminhando e coletava meus pequenos tesouros outros deixava ali que eram parte do pavimento pertenciam ao espaço entre dois paralelepípedos e às poças depois da chuva a essa idade eu tinha um flamboyant de esquina e embaixo dele um bloco de pedra com inscrição enigmática números letras em minha cabeça aquele bloco estava ali desde o início dos tempos pequeno monolito misterioso propriedade de todas as crianças da rua sentadouro para a brincadeira de passar anel e leituras de gibi dividia frequentemente o lugar na pedra com uma amiga de minha idade e à tardinha conversávamos nossas importâncias pueris remexendo musgos com palitinhos do outro lado da rua havia uma garagem com um cadillac abandonado meio tragado já pela terra batida e britas havia tantas montanhas sempre alguém reparando a casa lento lento subíamos nos morros cinzentos o barulho bom catávamos as melhores pro jogo das cinco pedrinhas conservo muito vivos meus chãos de infância na memória sabendo os todos de cor degraus irregulares do beco calçada lisinha que servia de rampa pra deslizar quando chovia morno no verão cada calçada da minha rua era um acontecimento único de materiais e inclinação variados que escolhíamos de acordo com a brincadeira a calçada rachada no meio era para queimada aquela com subida pra garagem era pra partir com a bicicleta morro abaixo íamos andávamos descalços muito nos sentávamos em qualquer lugar quando você é criança é mais próximo do chão das suas texturas cicatrizes pode ser que também saia com alguma cicatriz a minha está bem debaixo do queixo mas é só porque não se pode passar incólume por tanta intimidade os seus chãos te marcam de uma maneira ou outra a coisa é que um dia vão te afastando deles te ensinam a olhar pra frente pra muito lá adiante te ensinam sobre germes e bons modos te ensinam sobre a pressa veja que eu nunca aprendi muito bem nem eu nem manel nem tantas gentes mais deslumbradas admirando caracóis que bom continuo colecionando meus chãos e em boa companhia agora por exemplo tenho uma porção de novos de terras mais ao sul chãos úmidos de beiradas de lago de beiradas de golfo e das beiradas do pacífico derramamento de azul uns repletos de pedras vulcânicas outros poeirentos ladeados de amoreiras uns encantados de cachoeira seis dias de perscrutar chãos na companhia de outros olhos e outra sensibilidade tão parecida à minha que abraço e que me acolhe seis dias de andar devagar de agachar se sobre formigueiros e folhas e esqueletos de ouriço obrigada luz amiga por olhar por ter oito anos junto comigo postado por paixão m às 12 31 6 comentários sábado 15 de dezembro de 2012 de pães e nenhuma letra não ando escrevendo nem pouco nem nada agora entendo que meu escrever constante de tempos passados pode ter sido mais que mistérios do profundo da alma coisa simples de mãos inquietas escrever também é a textura do papel e o jeito com que a tinta corre por ele deve correr fácil e abundante deve manchar meus dedos unhas até unhas aliás que sempre tive curtas porque cresciam lentas e frágeis sim mas também porque quando um pouco mais longas me atrapalhavam a sentir a pequenez das formigas de açúcar perscrutar a geografia das pitangas muito com os dedos eu enxergava o mundo fazia dormir as dormideiras arrancava também as casquinhas da goiabeira minutos sem fim conversava com sulcos e saliências o nariz de minha mãe pequeno e delicado o queixo redondo e as linhas do sorriso um pouco mais profundas a cada ano entendi com os dedos que mamãe envelhecia mais que com os olhos também assim entendi a turgidez de fruta de estação de meu corpo púbere o espelho era uma confirmação plana fotográfica a verdade matéria me turvava a vista curvilínea e sumarenta o que quero dizer é que não quero escrever ando exacerbadamente sensorial as palavras me esgotam a linguística a literatura me esgota o idioma estrangeiro estoy agotada je suis fatiguée me esgotam os pós estruturalistas eu quero respirar fora do texto um pouco assim fazendo pães já fizeram pães vocês alguma vez senhores se não devem fazê lo mas façam o com canto e dança façam o como se gerassem vida como se gestassem como se parissem espalmem as mãos sobre a massa morna do pão como se ela fosse as costas suaves de um recém nascido alterne com sová la com lascívia afundando dedos queredores divida a massa leve ao tabuleiro cada porção para que descanse faça esse movimento com as mãos em concha como se tivessem sete anos de idade e carregassem um punhado de água do mar ou um passarinho cada pão que se vai abrindo como flor é único em suas reentrâncias e convexos não tenho tempo para escrever porque uso muito dele olhando os pães no forno os vinte e três minutos são exatos para o dourado perfeito mas há que flagrar o instante preciso de pequenos milagres um vinco que se alarga o lentíssimo movimento de um pãozinho se expandido pra tocar o outro a seu lado alguns dias exausta durmo o sono pesado dos que constróem casas o dia inteiro entendo os entendo as bordadeiras as catadoras de mangaba contemplo a poesia intrincada do mundo poesia material os nós de macramé pilha de tijolos vento no trigal as fileiras mesmas de pães versos de perfume quente e penetrante não tenho escrito enfim e não é falta ideias são as múltiplas querências as mãos inquietas talvez seja um capricho de quem sempre passou muito tempo contemplando e descifrando as próprias mãos talvez seja apenas um escrever de outra maneira texto publicado na cachoeiro cult de dezembro 2012 postado por paixão m às 06 20 um comentário quinta feira 21 de junho de 2012 etimologia é com a extensão inteira da sua pele que eu quero que você aprenda as palavras sentindo as todas como deve ser pego sua mão entre as minhas e lhe entrego a primeira escrevo na sua palma borboleta e a palavra lhe faz cócegas como se você deveras prendesse o bichinho na concha de suas mãos abra a mão e olhe com atenção borboleta é palavra de pura descrição de voos vacilantes com o tempo lhe mostro como uma folha de outono ou pedaço de papel podem se chamar borboleta também por agora vou escrevendo chuva atrás da sua orelha você não pode ler porque quero somente que escute o barulho dela chuva começa com o barulho mesmo de água com vertigem chiadeira de dígrafo que foi inventado exato para esses próprios ruídos chuá chaleira cachoeira choro imite comigo o barulho comprido dessas quedas d água o mesmo barulho de quando a gente pede silêncio com o indicador contra os lábios por isso as coisas da água vão bem com silêncio como o mar o mar conversa conosco é quando há um tudo quieto em volta ele pulsa e se dilata feito coração já viu coisa das marés e dos ventos por isso escrevo mar sobre seu peito e lhe mostro como o erre se expande pela abertura desimpedida da boca vai se espraiando horizontes sem fim coisa idêntica acontece com a palavra amor ouça bem as infinitudes por fim decido que quero suas pernas cubro sua pele branca com o nome das frutas que nascem de sementes acarinhadas pelas terras daqui vou dizendo pitanga cacau caju cupuaçu goiaba maracujá guaraná suas coxas se impregnando do cheiro de todas enquanto você repete os nomes mastigue as polpas sorva todos os sucos conto lhe duas coisas a flor do maracujá só a mamangaba poliniza único inseto desses ímpetos e o guaraná dizem ter nascido dos olhos plantados de um curumim maué depois silêncio são as águas postado por paixão m às 04 30 2 comentários sábado 10 de dezembro de 2011 tirésias não podiam se entender sentia que havia dentro dela uma solidão que ele nunca conseguiria tocar por mais que ela quisesse deixá lo ele que sabia de tantas coisas tinha as mãos grandes e curiosas demais para descobertas delicadas os dedos viviam buscando tudo ao seu toque se tornava objeto de detalhadíssimas e pegajosas inspeções ouvia coisas ainda não ditas sabia que amanhã iria chover somente pelo cheiro que tinha o ar quando a noite atingia o seu mais escuro da mesma maneira conseguia sentir o odor de qualquer descrença media a respiração dela adivinhava quando se acendia qualquer centelha de dúvida antecipava se a qualquer palavra declarava com voz maleável mas é certo que te quero como é vermelha esta maçã querida ele apalpava a fruta de maneira exagerada as pontas dos dedos brancas com a intensidade da pressão ele conhecia sobre a pele a textura da cor vermelha ela por sua vez olhava a fruta com as feições de quem tenta resolver mistérios desviou os olhos e suspirou vencida a expressão agora inescrutável em momentos como esse ele lhe tomava a mão entre as suas ele sabia que o tato sempre os salvava ele que sabia de tantas coisas como o fato de ela gostar tanto do outono pela abundância do amarelo para ela essa era a verdadeira cor das árvores enquanto caminhavam coletava com cuidado e sofreguidão o amarelo nas calçadas para conservá lo entre páginas ele divertido sorria do gesto no verão porém ela não entendia aquela tonalidade acinzentada das árvores nunca viu um número verde dentro de um círculo vermelho nunca na verdade havia visto uma maçã disso ele não sabia texto publicado na edição de 5º aniversário da revista cachoeiro cult foto por kami mckeon postado por paixão m às 09 11 2 comentários quarta feira 2 de março de 2011 poussière lumière ou da poeira em fachos de luz dizem que chade é o coração morto da áfrica localizado no centro norte do continente e sem comunicação com o mar apresenta um clima desoladamente desértico lá se falam oficialmente o francês e o árabe e a religião mais praticada é o islã é o mais populoso e o mais pobre dos países que compunham a antiga áfrica equatorial francesa o que me liga a chade é apenas o nome liane nimrod a impressão de calor intenso e a cor ocre alaranjada nimrod nasceu lá em 1959 apesar de depois ter se mudado para amiens na frança é doutor em filosofia ensaísta poeta romancista em 2004 lançou um livro de poesias chamado en saison e foi assim naquele três de junho de sol em pistóia na itália nimrod autografou um exemplar para seu amigo brasileiro carlos bendizendo as circunstâncias do reencontro deles anotou no rodapé da página todos os seus contatos e endereço não deixemos de nos ver mais uma vez sim com certeza obrigado sucesso obrigado sorrisos breves apertos de mãos e seguiu se a fila de pessoas de rostos ignotos recriei a cena sem nenhum compromisso com a realidade não estava lá nunca estive na europa muito menos em pistóia mas tenho a pista o fruto preciso partir da explicação de que o papel sempre me foi uma espécie de fixação a textura o cheiro as cores o cheiro principalmente o cheiro viciante do papel novo as livrarias cujo ar eu respirava como se fosse montanhesco fundos longos tragos aquelas lombadas coloridas e brilhantes imaculadas tão bom livro era assunto que me dava muito ciúme manias de encapar com plástico transparente colar etiquetas foi longo o processo que me levou ao saudável desprendimento pra lograr ser bem sucedida no exercício de emprestar a data de devolução de um livro precisa ser um mistério insolúvel longo processo que me levou a perder os cuidados em virar páginas e o medo de amassar as capas dentro das bolsas e a amar as máculas que deixam a leitura passei a gostar indecentemente delas dobrar orelhas grifar trechos que me faziam morrer de tanto viver naquele momento exato iluminações subverti me até chegar aos sebos ah os sebos o ar que se respira neles é bem diferente do das livrarias é mais denso e passa áspero pelas narinas nas primeiras vezes pode ser que seja a poeira os ácaros os ocasionais fungos prefiro chamar de história poeira num facho de luz revoluteando com o susto da descoberta pega se nas mãos um mundo que já foi vivido no mínimo uma vez antes todos os vestígios dispostos entre as páginas nas manchas da capa espremidos entre as entrelinhas da própria história exposta em tinta de gráfica dedicatórias trechos sublinhados observações flores fotos esquecidas bilhetes antigos chade amiens pistóia nimrod e carlos todos quietos no espaço concebível entre dois outros livros de uma estante abarrotada de livros em francês ao lado desses dezenas de outros centenas de outros acima abaixo atravessados em qualquer folga de espaço atravessados no tempo todos os outros milhões de dias e sentimentos dormentes esperando se andar melhorando demais em desprendimentos um dia subverto me ao ponto da perdição ponho meus dias e sentimentos pra esperar em janelas bancos de praça galhos de árvore feito mulheres assunteiras pássaros um dia em outro país eu deixo nimrod esperando num assento de ônibus e saio pensando em carlos postado por paixão m às 15 12 11 comentários segunda feira 2 de agosto de 2010 breve descrição para uma nova anatomia da ausência mais que de carne osso veias unhas sexo sou feita de ausência ausência pontuda calcária minha extensão toda negros espinhos rompendo a pele vindos dos debaixos da alma não há calma sempre taquicardia nunca é dia ninguém se aproxima do breu da noite que me tornei me arrasto no movimento quase intangível de mil perninhas sobre o chão liso demais das faltas mais fundas dentro da minha noite aguda todos dormem pra sempre mudam de posição sofrem seus espasmos noturnos sonham descaradamente diante de meus olhos insones diante da minha fome da minha estranha arquitetura de agulhas escuras veneno inflamação chamas incêndio sirenes enxame de abelhas canteiro de obras escombros uma parede emassada ali muitos pregos um quadro guerniquesco mel escorrendo grosso pelo pé direit...
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